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Tuesday, 15 July 2008

O que vai acontecer é que eu vou ficar MALUCA

E tudo isso antes de conseguir postar meus textinhos aqui pra todo mundo entender por que.

Sunday, 6 July 2008

Pra quem achou que tinha esfriado, olha o que saiu do forno:

Lançamento da oitava edição, segunda-feira, dia 07 de julho


Alessandro "Robocop" Bartel - Angela Oiticica - Bárbara Lia - Beatriz Bajo - Caco Pontes - Cassiano Monteiro - Cassio Amaral - Célia Musilli - Cesar Ribeiro - Daniel "Danny Boy" Cavana - Daniel Faria - Diniz - Humberto "Bebeto Cicas" Fonseca - Jarbas Capusso Filho - Karina Abramovich - Larissa Tanganelli - MaicknucleaR - Marcelo Ariel - Márcio Américo - Mariana Hagnè - Me Morte - Natanael de Alencar - Nicole Louise - Paula Klaus - Paulo de Tharso - Paulo F - Pedro Pellegrino - Ricardo Carlaccio - Robson Araújo - Rogério Saraiva.

O nada mora em São Paulo

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São Paulo continua fria e vazia. Mesmo com a Paulista ali do lado. Mesmo com as garrafas da geladeira e o maço que milagrosamente, ainda está na metade. Mesmo com as minhas amigas lindas e com vocação pra vida. Eu não tenho muita. Eu fico aqui meio encolhida tendo umas ideias. Tanta coisa pra resolver e eu aqui com essas ideias e essa chuva, morrendo de frio, com a minha insônia. São cinco da manhã e eu ainda nem arrumei a cama. A louça está na pia com os restos da minha última receita. A rádio fica tocando essas músicas que lembram aquele sorriso insano, de quem acabou de ganhar a guerra e não pode deixar o mundo saber. Aí fico bêbada dando vexame. Enquanto a mão passava pelo meu cabelo e eu sentia ele macio encostando no meu rosto. É foda. Estou ficando doente de novo. Preciso dos meus remédios black target e ocupar meu tempo e ganhar dinheiro e esquecer os olhos nas minhas pernas.
São Paulo tá pequena pra mim. Em São Paulo só existe a minha casa e as minhas cobertas. Lá fora tem um monte de gente louca achando que tudo é foda demais. É nada. Cidadezinha de merda. Pro inferno com a Paulista, com o Bexiga, com o Teatro Municipal, com a Pinacoteca, com o Túnel do Tempo com aquela vitrolinha velha e aquela caipirinha cara, a Roosevelt e as estações de metrô. É tudo entediante. São entediantes as putas da Augusta e os literatos da Vila Madalena. Ah, deus, é tudo um verdadeiro saco. Eu não quero ficar velha aqui.
Eu quero ficar velha com um minha caneca de café e ele me abraçando enquanto o mundo acontece lá fora.
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Tuesday, 24 June 2008

Escrevi um texto enorme falando do meu aniversario mas decidi que não vou falar do meu aniversario coisa nenhuma. Não agora, por que não deu vontade. Mas foi lindo, obrigada. E a Mi faz dois dias antes de mim, o que significa que estamos comemorando e bebendo desde segunda feira retrasada, e que neste exato minuto, eu estou morta e passando mal. Então não vou falar nada. Essas semanas foram minhas e dos meus amigos que eu amo. De mais ninguém. Agora que estou mais velha, vamos ver se fico mais discreta. Seria bom, o tempo passou e eu nem vi. Fiquei aqui e ali falando demais. Agora eu falo de menos. E tudo ao contrário.

Você disse que gosta da minha cama. Eu gosto de você na minha cama. Assim como acho que você fica bem bonito andando sem roupa pela minha casa me ajudando com meus acidentes domésticos. Eu pedi pra você não ir mais embora. Você disse que se ficasse ia me encher de filhos. E você ficou e me encheu de você.

Thursday, 22 May 2008

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Segredo.

Foi isso que eu li aquele dia. No fundo cinza e todo encolhido. Em letras itálicas e sublinhadas.
É muito fácil enganar-se quando essa idéia torna-se fixa na cabeça e atrapalha tudo. Seus cabelos rolando ásperos nesses dedos calejados. Loucura. Não pode ser desse jeito. Sete dias corridos como uma lesma e você de olhos abertos. Olhos crispados e cabelos ásperos. As migalhas pra você cuidar. Tão perdida no meio desse cinza temeroso. Toda beleza do mundo na boca dele, rindo com as mãos enfiadas no rosto.
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Thursday, 27 March 2008

Aí você chegou, me trouxe chocolates, me pegou com os cabelos molhados, eu tava faxinando a casa, passando cera, corri pro chuveiro, chuá, e eu não falei pra você ficar, eu sabia que não adiantava, você sabia que não adiantava, aí eu fiquei só abraçada nas suas costas, olhando você olhar pra mim e olhando o relógio, querendo puxar os ponteiros de volta, e isso eu também não te falei, não te falei que eu estava precisando muito de você e que bom que você veio, senão eu ia ficar com um buraco, senão o dia ia ser inconseqüente, muito Luz del Fuego, muito o filme chato da Melissa P., uma bagunça que não ia dar certo.
O dia amanheceu ruim, deixei os amigos em casa, sai cedinho cedinho pro trabalho, detesto ônibus, detesto metrô, detesto ônibus de manhã, de tarde e de noite. Ônibus não funciona. Tudo na minha vida agora tem que funcionar, mas tem coisas que ainda simplesmente, sem explicação, ainda não funcionam, e o ônibus de todo dia de manhã é uma delas, fico cansada, não é justo acordar todo dia e morrer esmagada de pé em quatro rodas que pulam e não andam, e hoje eu estou de mau humor. Me veio agora na cabeça aquele papo de parágrafos, e daí escrever sem parágrafos?, ta tudo escrito, o negócio é que o texto era ruim, o texto não tinha fim, era repetitivo, era chato, mas não tinha nada a ver com os parágrafos. Vou escrever cinco páginas sem parágrafos se me der na telha. Claro que ele, quando escreveu o texto, não estava nem aí pros parágrafos, e talvez tenha visto que o texto estava mesmo muito ruim e talvez por isso tenha parado na metade. Oras. As pessoas têm o direito de começar e parar de escrever quando sentirem vontade. Volta. Então eu voltei pra casa, toda amassada de novo, não tanto, o mundo inteiro vai pra Paulista de manhã, ninguém sai dela, só eu, hoje, eu voltei por que me mandaram, e o que é que se vai fazer numa hora dessas, aí eu voltei torcendo pro menininho que estava dormindo que nem anjo ainda estivesse ali no colchão da sala, a gente ia ver aquele filme horrível sobre a Melissa P. e ficar falando mal dele depois, aí a gente ia ficar falando bobagem como nos velhos tempos, mas ele não estava, foi cedinho, e ainda deixou minha porta aberta. Assisti o filme sozinha, as meninas dormiam no quarto, assisti baixinho, duas horas no latão do lixo. Eu li o livro. Tinha achado uma merda. Aí eu vi o filme. Pensei, ah, mas deve ser uma bosta, e era, eu sabia, mas agora já estava alugado mesmo, quando eu vi, tum, ele estava dentro da minha sacolinha da locadora. Devia ter assistido “O Cheiro do Ralo” pela terceira vez, esse livro sim é bom, o filme também, assistimos duas vezes ontem, eu, as meninas e o guri com sono de anjo, deu vontade de dar um beijo na testa dele antes de sair, mas vai que ele acorda, vai que ele leva a mal, vai saber. Devia ter dado, não sei quando vou encontrar ele de novo por aí sem querer que nem tem sido nos últimos anos. Tem coisas que não ajudam, eu queria ficar em silêncio, mas tem um cara aí na minha janela gritando sem parar “Henrique! Henrique!”. Colocaria minha cabeça pra fora e gritaria pra ele calar a boca se na minha janela não existissem grades, sim, minha prisão particular, serve pra ninguém que não é daqui continuar não sendo daqui, eu fico aqui quietinha e ninguém me incomoda. Quinze minutos. Isso não é tempo relevante pra ninguém mandar ninguém embora, eu pego ônibus, viu?, ô-ni-bus, ônibus em São Paulo não anda, não às oito da manhã, tem um monte de gente que não quer te deixar passar e passar em cima da sua cabeça, e eu me esforcei e cheguei com quinze minutinhos de atraso. Casa. Ta brincando? Não. Volta. AH, mas que diabo, vou voltar pra dentro de um ônibus. Pelo menos vou poder fazer minhas unhas, ver meus saldos, fazer meus planejamentos, dar uma cantadinha, ler uns livros, escrever pra ele, devolver os filmes pra locadora. Não pensar nessa gente toda que não anda de ônibus às oito da manhã, vou escovar meus cabelos, jogar um perfuminho, uma roupinha e colocar minha cara lá fora, onde o vento bate e o dia morre antes de mim, por hoje. Hoje eu queria escutar a voz dele, como você está?, me mandaram de volta, querido, o que eu posso fazer?, eu estou bem, né, e você?, eu estou com saudade.

Tuesday, 18 March 2008

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A noite em São Paulo. Tudo se renovando e tudo como sempre. Observei da sacada com o amigo que estou gostando muito. Café com conhaque. Só faço isso lá. Uma página de um livro e um deja vu. Quase nunca acontece. Esqueci de comentar com ele. Um deja vu daqueles que a gente quer até escrever um roteiro de filme só pra incluir a cena. Falando de coisas banais com certa devoção. Nenhum embaraço. Alice fica à vontade. Não me recordo direito, mas eu me parecia com filmes iranianos? Não me lembro. Queria lembrar. Ultimamente as pessoas que gosto tem-me feito comparações. Miss Sunshine. Em pleno outono e inverno. Grata, mas espera, então, se isso (de repente) está virado pra fora, pra dentro sobrou o que? Quem eu sou vista de fora? Uma estranha. Agora vejo o ponteiro do mouse mexer sozinho até quando estou em casa. Agora me lembro das pernas despidas, numa festa com moças que cobrem pernas com finas meias. Brancas. E eu sempre à mostra. Sem meias. Ou com metade das meias. Até pouco abaixo dos joelhos. Um blog com cara de linha puxada. Tenho cigarros, mas não tenho isqueiro, o que é pior que não ter cigarros. Não aborreci-me com o comentário daquele estranho. Ele coçando sua barba olhando pra mim. Fale. Fale. Não falei. Corei e não falei. Só cuidei pra não largar nada enquanto tudo não ficasse arrumado. Sou uma menina caprichosa. Disso, o estranho sabe. Ele fica olhando, vê minha memória e minha pouca habilidade com os cacos de vidro. Vou sonhar com isso. Vai mesmo. Mas eu não respondo. Agora nem coro. Agora eu não ligo. Meu respeito pela humanidade voltando. Ele enrolando uma mecha do próprio cabelo enquanto fala. Fila de livros. (Não esse tenso torcer de mãos... esse teto escuro e sem estrela).
Inclusive, conheci o Carlaccio ontem do nada, enquanto tomava uma cerveja num quase-boteco. Li seu Um Drink no Bunker no fundo da H. Conheci a Lu (Lu por pura intimidade, adquirida já nos tempos de trocas de e-mails cheios de substâncias existenciais, furadas e sérias). Ela tinha escrito um conto sobre uma garota que amou tanto que perdeu a própria dignidade. Ela sim, a Lu, é um verdadeiro raio.
Pela primeira vez, acordei de manhã e me vi: Esse negócio de ser a gente mesmo incomoda. Mentira. Eu nunca mais vou sentir um cheiro de manhã e não lembrar de quando eu me sentei ali. Faz frio na noite de São Paulo.
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Escuta, Layla, eu avisei. Ouve. Olha no espelho. Eu avisei. Eu bem que te disse. Você foi querer ir pra lá. Foi querer ficar olhando. Você disse que ele não tinha cheiro nenhum, Layla. Uma pessoas não pode ter cheiro nenhum. Tem que ter cheiro de alguma coisa, de morte, de incenso, de suor, de doce. Tem que ter alguma coisa. Mas ele não tinha nada. Ele tinha uns botões da camisa abertos e você foi querer justo ele. Aquele que te chamou de morta, que viu que você vai morrer em breve. Ele viu que você não vale a pena de cara. Não adianta ficar desse jeito. Ta ridícula com esse batom. Nunca te vi assim. Uma carcaça. Puta. Puta três vezes. Você disse que ele não olhou no seu olho, Layla. Como você acredita em alguém que nem te olha no olho? Como você acredita em alguém que nem te beijou quando você estava no chão e ainda disse “fica com Deus, gatinha”?. Deus é o caralho, Lay. Ouviu? Deus é o ca-ra-le-o . Eu sempre te disse. Não borra meu lenço de batom, enxuga só as bochechas. Queria que ele te visse assim. Vê se tu bota na cabeça. Você é sozinha. Você nasceu assim. Vai, ré confessa. Devolve o que não é teu e te arranca. Sinceramente, Lay, estou começando a ficar com raiva de você.
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Fazia um tempo, o sol não saía mais, ele estava ali, claro, queimando minha cara e queimando minhas costas cansadas, mas eu não sentia. Eu fiquei ali com as placas, um monte de feministas gritando “eu sou mulher, sou feminista!” e tocando Elis, Rita, Duncan, Caetano, essa gente que fez letras assim pra tocar em passeata, e eu ali com as placas, meio querendo ir embora, meio querendo dar um grito, meio querendo mandar passearem os moleques que não gostavam de sol e pinga quente.. Comprei toalhas novas pra mesa, fiquei com a veia inchada, está verde, me assusto quando olho e por isso não olho, esperei pra dizer pra ele que não tem jeito, é ele mesmo, logo ele, não tem jeito. Ele chegou tarde, chegou hoje, com seus lábios, dedos e línguas, com sua pilha de manias e esparramou tudo ali no meu sofá e usou os meus óculos pra ler coisas que eu não queria que ele lesse, eu pensei, ai é ele, é ele, é ele, droga, mas que droga, não era pra acontecer. Aconteceu. Agora ficou tudo pra limpar, perfume, porra, cinza, lixo, os lixos da gente que a gente não quer, que não dá pra conviver, ficou tudo ali e está tudo sumindo. É o que sobra, um monte de lixo. Virou um monte de lixo.
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Eu pensei que nunca ia falar com ele, nunca ia falar a língua dele, mas agora eu falei, ele do jeito dele e eu do meu, mas a gente conversou, ele olha seriamente, fala seriamente, escreve seriamente e eu olhava e falava mas que saco, assim não tem graça, e fazia minhas coisas e guardava minhas coisas e ia ser assim pra sempre, só que agora não é. Agora estou ficando velha, tenho vinte anos, meu deus, não era pra eu estar velha, não era pra gostar de coisas velhas, não era pra eu ser uma colecionadora, não era nem pra eu olhar pro relógio, mas acabei de olhar pro relógio, foi agorinha, e vi que eu envelheci mais uns cinqüenta anos.

Wednesday, 27 February 2008

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Que noite triste. Quanto resto de coisas no chão. Olha pra baixo. Só tem restos. Só tem restos e eu acho que faço parte. Justo eu que tenho tanta coisa pra fazer. Fazer meu maço de cigarros durar pelo menos três dias. Deixar de ser tão afobada. Chegar na hora certa. Parar de marcar encontros. Amar um homem por vez. Eu não consigo. Preciso parar de mentir. Dizer coisas sem sentido. Dizer coisas erradas. Pensar mais, falar menos. Fazer mais, esperar menos. Descansar mais, amar menos. Tudo na medida errada. Desfazer aquele monte de roupas do quarto. Não tenho mais espaço pra andar. Nem pra abrir meu guarda roupas. Parar de escrever e-mails. Parar de esperar respostas de e-mails. Rever os amigos. Me explicar pra eles e pedir desculpas. Abraçar meu pai. Parar de dever no banco. Ligar pra ele, eu disse que ia ligar. Ele me fez prometer. Eu prometi. Parar de sentir vergonha. Parar de olhar as costas alheias. Parar de roubar os homens das outras. Ficar com um só pra mim. Limpar as cinzas do meu teclado. Parar de rir escandalosamente. Parar de chorar com musiquinhas. Escrever mais, nada pros outros. Escrever minhas coisas. Sustentar meus sites. Responder meus recados. Dormir na hora certa. Parar de andar morrendo pelos cantos. Eu preciso. Tenho que aprender mais, ser mais esforçada. Não ser só alguém que está ali. Debater. Erguer a cabeça e mandar tomar no cu quem tem que tomar no cu. Deixar as unhas crescerem. Pintar elas de vermelho. Parar de machucar os outros. Parar de filosofar em voz alta. Parar de rir de piada sem graça. Aprender a tocar violão direito. Aceitar que eu não sei escrever poesia. Parar de escrever poesia. Sumir com as poesias do blog. Mudar o nome do blog. Mudar meu nome, usar o de verdade. Ler mais livros. Manjar de literatura clássica. Aprender a pronunciar Litz. Parar de deixar pra lá. Resolver as coisas eu mesma. Aprender a matar baratas sem suar, tremer e sair correndo. Renovar meu guarda roupas, comprar as lentes certas pros meus óculos. Parar de pensar nele. Entender que as pessoas têm coisas pra fazer. Parar de dançar só em casa. Engordar três quilos. Comprar botas novas.
Só que eu não sei por onde começar. E nem como.
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Um diamante no poço


Para Flávio de Franco
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Só que desta vez, só desta vez, a gente pode não se dar um abraço de conforto no fim da noite. Eu sempre amei todos aqueles homens da minha vida, que fizeram dela essa confusão. “Você devia andar mais com as meninas” sempre me disseram. Claro que eu nunca dou ouvidos a essas coisas meio sem motivo. E claro que eu ia me apaixonar perdidamente pelo menininho que pagou um copo de bombeirinho pra mim quando eu tava triste ali na arquibancada daquele lugar enorme, só por que eu tava triste por causa de outro homem, outro que não valia a pena, que dormia ali ao lado. Claro que a gente ia beber juntos e claro que a gente não ia se perder. Por algum motivo, essas coisas que tem que ser, essas pessoas que a gente tem que encontrar, você entrou pro clube, fez dos meus amigos seus amigos sem ter que me envolver na confusão. Aí você me contava das suas garotas, eu te contava dos meus garotos, a gente tentava cuidar um do outro e lógico que você sabia que eu precisava de cuidados, ao passo que você sempre foi melhor que eu. Claro que eu ia morrer de ciúmes da sua primeira namorada, e claro que você queria que eu tomasse meu caminho pra parar de chorar todas as noites por causa dele, aquele que eu também amo ainda, mas de outro jeito. Aí você me ensinou a jogar truco e eu ganhei de você várias vezes. Aí você me ensinou a jogar bilhar e eu também ganhei de você. Um menino e uma menina, sim. Claro que você ia tirar aquela musica da Chan Marshall que você odeia só pra me ensinar a tocar, por que eu adorava e cantava ela o tempo inteiro. Aí você desenhou pra eu não esquecer, eu tenho a folha. Eu sou cheia dessas coisas que não servem pra nada. Você sabia que eu não era amiga pra sentar no colo, nem pra ficar beijando, nem pra ficar flertando, nem pra ficar passando a mão no cabelo. Você sabe que eu não gosto que peguem em mim. Eu sabia que podia confiar em você. Sabia o que você faria pra não me magoar e sabia o que você faria pra eu não me foder mesmo que fosse me magoar e eu fosse entrar naquelas minhas histórias de fim de mundo. Você agüentou meus homens errados e eu agüentei todas e todas as suas mulheres erradas, “são erradas”, eu dizia, mas mesmo assim entregava seus bilhetes e recados pra elas, depois você vinha e dizia “são erradas”. Apostávamos garrafas de vinho. Brincávamos de lutinha e de pegar o dedão da mão do outro com o próprio dedão, sem usar os outros dedos, não sei se essa brincadeira tem um nome, mas se tiver, de que adianta? Eu sempre perco. Jogávamos rolhas e gelo dentro das blusas um do outro, bagunçávamos o cabelo um do outro (lembra quando eu tinha um cabelão? – aliás, lembra quando você também tinha um cabelão?), e conversávamos tomando long necks nas calçadas de São Paulo, longamente e sem descanso, sobre os nossos problemas, os problemas dos outros e sobre o mundo e sobre mulheres, homens, e música e crenças e teorias e planos. A gente dançava e assistia as bebedeiras do outro com todo carinho. Se eu caísse, você me segurava, se você caísse (quase nunca caiu) eu te segurava, e quando queríamos cair os dois, então caíamos os dois e levantávamos os dois e ríamos juntos.
Ai, menino. Eu não entendo você. Eu não entendo homens. Eu convivo com eles e eles me enlouquecem. Mas você é meu melhor amigo. As vezes, eu acho até que você sou eu.
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Deve ser por que os vizinhos não gostam de mim. Deve ser por isso que estão todos no meu corredor agora. Tenho um quintal que na verdade, é um corredor. A Michele chama de quintal. Eu chamo de corredor. Pode até parecer um quintal. Mas é um corredor. Estão todos ouvindo Roberto Carlos no último volume em plena meia noite e cantando junto, por fora do meu corredor. Estão nessa putaria desde as oito horas da noite. Que eu saiba. Mas deve ter começado há bem mais tempo. Eu não tenho saco. Tudo está me irritando profundamente esta noite. Mas o Roberto Carlos, ahhh, o Roberto Carlos. Ele e seu como é grande o meu amor por você e todos os seus fãs chatos. Eu estava até bem antes de chegar em casa. Casa é feita pra gente descansar, ouviram? DESCANSAR. Parem de gritar música ruim nos meus ouvidos cansados.
Tem um dedo de Martini na geladeira. Odeio Martini, não tomo desde que me conheço por gente, sinto o cheiro e logo penso que quero ir vomitar na privada mais próxima. Ah, agora estão cantando os caracóis. Embaixo dos cabelos. Sempre tive uma má impressão sobre essa música. Desafinados. E tentando parecer cantores, cantando com maniazinhas. Vamos, me irritem mais. Me irritem mais. Tem miojo fazendo, que eu queria comer em silêncio. O miojo sagrado de todo dia. Comida de gente que, que nem eu, não tem tempo. Sou obrigada a ouvir musica em casa pra ficar mais alto que o som da festinha de corredor. Eu voltei e agora pra ficar. É isso que eles cantam lá fora agora. É foda. Vou ter que escutar música até às seis da manhã. Amanhã é minha folga. Eu queria dormir. Eu só tenho um dia por semana pra dormir. Eu preciso. Faz bem pra minha saúde. Não gosto que me incomodem. Minhas festinhas são dentro de casa. Ouviram? Dentro. Não na frente do corredor dos outros. Essa noite eu queria ter paz. E queria que ele me acordasse de manhã. E queria ouvir ele e ver ele e ficar agarrada nele. Vamos ver.
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Monday, 28 January 2008

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Eu sempre coloco a minha carroça na frente dos bois, aí os bois empurram a carroça com a cabeça, e quem está na frente da carroça? Eu, claro, que acabo toda esmagada, pela carroça e pelos bois, no meio da rua passando o maior aperto pensando “mas caralho, eu sabia, eu sabia”.
No fundo todo mundo tem esperança de ser feliz, né? Que o trabalho dê certo, de não morrer um João ninguém, de não ficar pra tia, de não morrer de infarto, de ter sempre em quem confiar, de não ser engolido por algum buraco negro no caminho, esperança de chegar , etc.
Tem coisas que são feitas pra durar. Outras não. Eu olhei no olho dele ontem e vi vai durar muito. Ele riu de mim por que viu que eu fiquei completamente desolada. Eu ri de volta, por que foi engraçado mesmo. Fico pensado por que só comigo meu deus, mas todo mundo deve pensar isso umas cem vezes por dia, pelo menos eu acho e no fundo torço pra que sim. Pra mim é importante até sentar na mesa do bar e ficar escutando as conversas malucas dos amigos sobre todo tipo de coisa, todas absolutamente verdadeiras e memoráveis, eu tenho mania de achar tudo muito sério. Pois bem, então eu vou ver o que eu posso fazer, cada um que dê seus pulos, me ensinaram. Eu aprendo lições muito bem.

Wednesday, 23 January 2008

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Karinamovich é uma menina que anda sem sorte, sem tempo, vara madrugadas (dorme às 6:00 am) e acorda de tarde para o péssimo trabalho que possui, trabalho qual a desgasta, a humilha e não mais a diverte, nem de vez em quando.
Tenta escrever com o senso de humor que há dentro dela mas não consegue e pára no meio.
Sente que precisa parar de agir como se não fosse uma pessoa envergonhada de ser como é e fazer o que faz.
Sente-se culpada por não conseguir manter relações e convencer pessoas. Também por não escrever seus textos dentro do prazo.
Começa de novo da estaca zero, toma cuidado ao manusear freios e não usa mais relógio de pulso, além de medir suas palavras e seu tom de voz mesmo encontrando dificuldades.
Ainda sente arrepios com toques e proximidades e certas intimidades e fica paralisada diante das expectativas.
Tenta perder a mania de franzir os olhos e tenta endireitar os ombros e carregar menos peso, além de tomar uma postura mais ativa que passiva diante da vida e sofre por não ter decorado a frente de sua casa com luzinhas de Natal, onde nem comeu um pedaço de panetone à meia noite.
Toma antibióticos fortes pois quase morreu após tomar uma chuvinha de madrugada e beber mais do que devia por durante quase duas semanas, perde canetas todos os dias e só se sente feliz as vezes, além de ter virado uma pessoa altamente tolerante em vista do que ela era antigamente.
Vibra com valsinhas e blues, odeia propagandas de energéticos e come coisas industrializadas mesmo que tenha medo de intoxicação, infarto e diabetes.
Tem esperanças de se encontrar e parar de apenas encontrar as pessoas sozinha.
No fundo é boa garota, tem alma boa e não quer atrapalhar ninguém, acredita em respeito, assim como em solidão bem controlada e de dentro, e fica furiosa com quem não sabe quando parar, embora ela não tenha a receita.
E pode ser que amanhã ela não seja mais nada disso.
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(Assistindo um especial do Ivan Lins na tv)
Michele, levantando do sofá, puta, e indo em direção ao quarto:

“EU ODEIO MÚSICA BOA!”.

Bonito ele explicando por que as pessoas vão embora enquanto eu choro e quebro as coisas. Ele disse que eu tenho que me controlar mais e correr mais e fumar menos e afinar meu violão, e que ele não reconheceu aquela música que eu toquei da última vez.
Ele disse que eu era mais bonita antes do trabalho acabar comigo e ele não entende que a gente faz certas coisas só pra fugir e ele não entende que existam pessoas moles. Eu expliquei pra ele que eu sou mole, que eu danço sozinha no meio da sala e que os vizinhos não gostam de mim. Mas ele fez silêncio eu não sei por que, de repente ele não entendeu nada, de repente ele sentiu vergonha.
Eu fiz uma pasta com poemas de fim de noite, ele recitou alguma coisa comigo e guardou em baixo da cama; as vezes eu cito versos e ele não lembra, e por isso nem sente culpa.
Eu escrevo frases soltas nos guardanapos e enfio tudo nos bolsos dele, mas ele não mexe nos bolsos e lava tudo junto com as calças na máquina e reclama por que todos os bolsos dele ficam manchados de tinta de caneta. Eu bebo enquanto ele observa. Eu torço enquanto ele reza. Eu usei saias por que ele disse que gosta de olhar minhas pernas. Ele ficou com ciúmes, quebrou um copo, bateu num cara e foi embora sozinho.
Eu disse pra ele que chorava diante de coisas muito bonitas, eu dizia que coisas completas eram coisas bonitas, e ele nunca entendeu por que eu cobria o rosto quando fazíamos amor no meio da sala. Ele beijava minhas mãos e torcia pra que eu disse alguma palavra.
Um dia ele me deixou dizendo que eu tinha muita tendência a não acreditar nas coisas.
Mas eu acreditava nele ali deitado no sofá com um cigarro comido entre os dedos, entorpecido de vinho e sono falando que não podia esquecer de comprar novas gravatas, pegando no sono até às sete da manhã.

Thursday, 3 January 2008


12:42.
Primeira madrugada do ano. Nada diferente. Cada pessoa amada num canto. A gente acaba passando a virada com quem a gente menos espera. Pelo menos dessa vez, é uma amiga que eu amo muito. Ela ta lá fora meio bêbada chorando ao telefone. Ela também tem um amor, e o amor dela também tá longe, mas pelo menos o amor dela está logo ali ao telefone (mas ela ainda não entendeu isso). Talvez esteja dizendo que ela não precisa chorar mesmo sabendo que ela vai continuar chorando mesmo assim e que ela não devia beber tanto. O meu eu não sei onde está. Está longe. É o que eu sei. Não quero nem saber mais que isso.
É o primeiro dia do ano e as coisas tem que ser boas.
No mundo inteiro é. Pelo menos na maior parte dele.
Agora tem que fazer a primeira corrida do ano atrás de cigarro. Dois maços vazios em cima do colchão. Um meu, outro dela. Meu macarrão acabou sendo a “ceia”, mas está tudo melhor do que podia estar. Pensei que eu ia ver a virada do ano de cama. Não tem ceia e não tem festa por que eu acabei melhorando da minha doença antes do esperado. Aí eu estava fodida por que não tinha comida, não tinha planos e não tinha tempo. Mas sempre sobra alguém tão fodido quanto a gente. Ano passado foi a Mi, a gente se achou no Natal. No Ano Novo eu tava lá na praia perdida com o Rafa, mó chuva, alguma coisa que só os finais de ano tem (sempre a partir dos fogos) e que está pairando aqui agora.
Hoje voltei a fumar. É, eu tava tentando parar, e quase me levei a sério por um dia ou dois. Mas hoje, primeiro dia do ano, eu voltei. Fiquei triste. Primeira meta não alcançada. Mas voltei por que não dava pra passar por aquilo sem um cigarro.
E o primeiro cd tocado do ano foi o do L7, por que o de antes tava riscado, e eu não queria ouvir os fogos. Fui na varanda, gritei pra pararem. Não pararam, claro. Precisava de um barulho mais forte. E que alguém achasse que aqui tinham umas 15 pessoas felizes. Mas tinha eu e a H. Só a gente com as nossas dores meio parecidas. Só que ela tem um telefone. Eu tenho uma veiazinha pulsando no peito que ainda se emociona quando eu penso nele. Mas eu não posso beber por causa dos meus remédios, então eu estou sóbria no primeiro dia do ano e isso pode até querer dizer qualquer coisa. Talvez não.
Mas eu voltei pra casa, fiquei dias intermináveis fora, quase morrendo de dor, literalmente, eu tava doente. Acho que aprendi a gostar da minha casa. É o melhor lugar pra eu estar agora. Eu e a minha veiazinha. A gente fica aqui esperando e vendo entre a gente o que é que a gente vai fazer afinal de contas. Ta na hora. Devia estar.
Agora os fogos cessaram. A H. ainda ta triste, chorando e no telefone. Eu to triste, sóbria e escrevendo.
Eu sei que as pessoas que eu amo estão felizes. E eu sei que um monte de gente lembrou de mim meia-noite, assim como eu me lembrei delas. Eu só não sei dele, se ele cumpriu, se ele lembrou mesmo de mim. Eu queria que sim. Eu cumpri. Mesmo sem reparar, mas pois é, eu cumpri. Eu cumpro promessas.
Eu só lamento por uma pessoa, que agora deve estar tendo a pior entrada do ano do mundo e a culpa é minha. Eu não queria, mas eu não pude fazer nada. Ele tem olhos sinceros e que nos fazem entender o que ele diz, e eu entendi. E eu entendi tanto que eu acabei fodendo com ele sem querer. Queria não ter entendido. Queria que ele ficasse bem e que parasse de ficar sem dormir.
Amanhã vai estar todo mundo aqui. Todo mundo que eu amo. Quase. Falta a minha mãe, falta ele e falta a Re. Mas tem um monte de cerveja que eu não posso tomar por conta dos remédios, tem um monte de carne, tem churrasqueira e tem uma porrada de comida que essa casa não teve nunca em toda sua curta história. Então chegarão pessoas amadas e ficarei admirando elas e curtindo elas. Pulando em todo mundo, afastando os copos da mesa dos cotovelos alheios. Vai ficar tudo bem. Hoje é só a madrugada. É onde eu me encaixo, é onde eu me escondo, mas o dia vai ser bom. O meu e o da H.