Wednesday, July 25, 2007

Das conversas com Deus – II

Querido Deus,

Com licença, mas o senhor tem certeza que está mandando todas essas desgraças diárias pra pessoa certa?
Quero dizer, eu tenho estranhado essas encomendas chegando todos os dias na minha porta, e daqui a pouco, creio que não terei mais lugar para coloca-las. Peço que, por favor, dê uma revisada na sua prancheta (se não for dar muito trabalho, claro), e, pro caso de estar tudo certo, será que dava pra me mandar um boletim explicativo sobre meus pagamentos? (peço que considere, pois, dado o horário da gente aqui no Brasil, já é madrugada, e eu estou a quebrar a cabeça no pouco tempo que tenho pra dormir).
Desde já, obrigada.
Sobre a capacidade de matar o amor
Ou
The Great Gig In The Sky

Passei noites em claro balançando o berço onde o amor deitava, exausto, chorando a madrugada inteira. Falta de alimento não era. Talvez fosse a música. Mas acho que não era também. Amar o amor é o pior erro humano. Existe essa necessidade de tapar esse buraco que dói e sangra o tempo inteiro, assim, na frente de qualquer um. Muitos constrangimentos que podiam ser evitados se os curativos estivessem bem colocados e com esparadrapos suficientes.
E depois de simplesmente levar um balde de água fria na cabeça a gente simplesmente devia aprender. Eu tenho que aprender a não entregar meu coração assim, desse jeito. Pra qualquer coisa, não só pessoas. Por que eu sei que o que volta pra mim é só um pedacinho dele, todo mutilado, todo roxo, irreconhecível. “Karina, esse coração que tava lá na calçada é seu?” Oh, sim, obrigada. Já estava começando a achar que não o veria mais. Obrigada de novo. “Por nada. Mas enrosca ele aí logo, por que da próxima vez você pode não ter tanta sorte, valeu?”. Certo, eu sei, eu sei ...
Mas eu não enrosco. E quando eu não enrosco, eu passo um tempão olhando pra ele pra ver se ele vai se reconstituir. Mas o tempo passa, nada acontece e eu continuo olhando. Volta pro peito mutilado mesmo. Esperando alguém com umas ferramentas pra consertar ele. Sim, por que eu mesma já não me julgo capaz de consertar tudo isso aqui sozinha. Odeio admitir. Odeio mesmo. Mas eu tenho caído no berreiro na frente de cada panaca. Na frente de cada imbecil que nunca vai entender por que é que eu to me descontrolando desse jeito. E a classe, Karina? Ah, pro inferno com a classe. Nunca fui classuda. Pelo contrário; minhas pérolas estão bem longe dos saltos das madames. Às vezes eu fico pensando que eu não sei fazer nada e nem sou capaz de aprender mais nada. Primitiva da raiz do cabelo até a unha nos dedinhos dos pés. Na frente das pessoas que eu podia chorar, eu fico tentando dar uma de forte. Se bem que pensando direito, tem umas pessoas que é melhor mesmo que eu não chore na frente, que eu não peça colo, que eu não ultrapasse a barreirinha de felicidade geral da nação. É melhor que eu faça parte da felicidade delas, e não da preocupação. Não gosto da possibilidade de dar trabalho pra alguém.
Eu estive pensando no meu coração, no meu lugar no planeta, nos meus passos certos em contravenção dos meus passos errados. Parece que nada está balanceando nada. Parece que sempre o abismo é maior, que a maior fatia de bolo nunca cai nas mãos de quem tem mais fome. Parece que não tem conserto.
Eu queria saber quantas pessoas tem coragem suficiente de dar amor sem expectativas... se não dói... se não acaba matando. Por que por algum buraquinho a minha essência deve estar escorrendo, por algum lugar onde eu não enxergo.
Fico pensando se não estou cometendo o erro de sempre. O erro fatal da não-entrega, o erro fatal da preocupação com os achismos dos outros. E penso ainda, no por que disso tudo, sendo que tudo que eu queria era me entregar do jeito que eu sempre ameaço, era abrir meus braços e deixar que meu emocional tome conta geral dos meus movimentos, da minha voz, do meu corpo.
Fico pensando que o amor não pode ser só a figura de um coração e uma faca embrulhados pra presente chegando á porta de quem não sabe amar.
Eu me peguei dizendo ontem pra Michele, “Mi, eu preciso de mais. Eu sempre preciso de mais”. Ela concordou com a cabeça e com a expressão de quem não estava entendendo nada e ao mesmo tempo estava entendendo tudo.
Então é disso que eu preciso? É isso que eu não posso viver sem? Tenho me sentido extraordinariamente sozinha. Eu realmente não conheço um ombro no qual eu possa me deitar e chorar todas essas lágrimas que sobem nos meus olhos toda hora mas que eu engulo, eu engulo pra não ter que admitir que eu fraquejei, que eu estou sem saber o que fazer pela primeira vez em toda a minha vida. Eu já não sei do que eu preciso. Será de um médico, que eu preciso? Amor? Um corpo do meu lado na grama? Um agasalho mais grosso? Uma espada de ouro? Explicações? Manuais? Eu preciso de ajuda pra sair daqui de dentro de mim.
Eu preciso de espaço pra gritar. Eu preciso de alguém pra conversar comigo. Alguém disposto a ouvir, alguém que saiba ouvir. Alguém que saiba do valor da paz que eu falei, e apesar de eu amar meus amigos sem exceções, eles não tem conseguido esse impossível que era tão fácil antes... Eu preciso de alguém só pra conversar e olhar nos olhos. Alguém pra arrancar sorrisos. Estou me sentindo sozinha. Eu não lembrava que detestava me sentir assim. Mas eu detesto. Eu detesto mais do que estar acompanhada por um monte de bocas que não dizem nada.
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Pra quem esperava entrar aqui e achar um texto sobre aquilo lá, sugiro que dêem meia-volta. Reabriremos depois do almoço. E com outra programação.

Grata,

Friday, July 20, 2007

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Lidando com o que existe:

Ouvi a mesma frase o dia inteiro: você está triste, Karina? “Não. Claro que não”. E o que te deixa triste? “Essa música do Arnaldo me deixa triste. ‘te amo podes crer’, já ouviu?” Não. “Ela é a única coisa capaz de me deixar triste agora”.
E é bem ela que está tocando. Sacanagem, né?. “Não, fui eu que coloquei”. E por que, Karina? Você quer ficar triste?. “Não”. Então qual o motivo dessa contradição? “Essa contradição sou eu, meu bem”.

A ficha caindo direto no estômago

Ups. E não é que existe dor?

O sarcasmo de berço e suas condições de uso:

O plano é montar uma loja que venda um saquinho cheio de amor. Eu encho um saquinho de veludo cheiroso com amor, e você me paga por ele, assim, uns dois reais. “Mas e se eu não precisar de amor?”. Depende. Por que você não precisa de amor? Já te deram muito, assim, de mão beijada? “Não”. Então por que você não precisa de amor? “Por que quando eu olho pra cá, sabe, aqui dentro, eu já vejo um monte dele. Não preciso de mais. Acho que até está sobrando”. Hum. Nesse caso, toma aqui esse saquinho de veludo. “Isso é uma parceria?”. Mas é claro.

Dos saquinhos vazios de veludo

Mas o inadmissível mesmo, é olhar ali praquele lado do lago e não sentir nada. “É por isso que eu não vou lá. Não sozinha”. Mas a solidão precisa de alguém que dê a mão pra ela. Alguém, que não fale, não chore, não lamente. Só ande por aí, com as mãos emendadas nas dela – e sem reclamar, repito. “Engolir suspiros com açúcar”. Mas os suspiros já não são doces? “Não aqui dentro, meu caro”.

Cigarras e vaga-lumes à luz do sol.

“Por que você canta?” Pra não me sentir sozinha. E você, escreve por que? “Pra suportar a solidão”. Mas todo mundo responde que escreve pra não enlouquecer. “Mas de loucura, acho que já sofro”. Então a próxima resposta ranking é ‘pra não morrer’. “Mas você esqueceu da contradição! A contradição! Eu escrevo pra não ter que ir viver”.
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Wednesday, July 18, 2007

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Karina Abramovich: Doente, rouca, com o coração aberto (justo nesse frio!), com cara de sono, remendando a cordinha, pesquisando no Google, trabalhando com música, produção visual e com as letras de antigos manuscritos. Logo ela, menina tão atrapalhada com ela mesma.
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Tuesday, July 17, 2007

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E se minha alma fizer silêncio?
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Monday, July 16, 2007

Karina, gafes, impaciências e desafetos (OU:) *Sarau - "O Som da Alma".



É. Definitivamente: Eu não sei interagir. Não sei se me sinto mal nesse mundo por que sou muito pequenina para ele, ou se por que sou gigante. Creio que depende do dia, e dos pontos de vista. No meu ponto de vista particular, é por que meu corpo não acompanhou minha cabeça. Sou mesmo uma rabugenta no corpo de uma menina de 20 anos. Quero dizer, eu passei tempos me auto-analisando ontem, por que sério, não tinha merda nenhuma mais interessante pra fazer se não isso. O tal do sarau. Lá no Brooklin. Já estava meia hora adiantada, já estava sem cigarros e com cólica. Já estava de saco cheio na porta. Verdade. Na porta. Não tinha nem entrado ainda. E já estava de saco cheio. A casa era linda. Não tenho o que falar. Linda, linda mesmo. Numa rua mais linda ainda. E tinha toda aquele povo cultureba lá dentro, a proclamada geração saúde. Ninguém fumava. Ninguém bebia. Todo mundo era artista de alguma forma. A maioria era composta por músicos. Fiquei um tempão sendo levada pra cima e pra baixo pelo artista plástico (não recordo o nome) simpático que me achou um nojo de pessoa. As pinturas dele eram muito boas. Mesmo. Mas não foi o suficiente pra encher de beleza o meu dia, que estava tão em outras paisagens. Aí eu fui me encostar lá num canto. Todo mundo vendo as pinturas, tirando fotos e eu encostei bem no interruptor. Apagaram-se as luzes. “uuuuhhh”. Acendi a luz, quando me dei conta que a feitora de tal proeza fui eu. Todos os admiradores de artes plásticas me achando muito engraçadinha. “Quero sair daqui”, disse eu, pro artista & professor de pintura. Ele apenas concordou que seria legal mesmo. Ele não queria ser visto comigo. Desci as escadas tomando cuidado pro meu casaco comprido não pegar fogo, dadas as velas que estavam nos dois cantos de todos os degraus. Lá fora, o artista plástico quase pulou em cima de um cara que ele conhecia, tinha que ver, desesperado pra se livrar de mim. Também, eu só falava “bonito”. “Bonito”. “Bonito também”. O que mais eu podia dizer? Eram quadros bonitos. Eu não sei interagir. Acho que ele esperava grande discurso sobre arte moderna. Mas minha cólica doía mais. Então, não obrigada. “Bonito”. E um artista desconcertado. Lá fora, resolvi que seria legal fumar fora da casa, mesmo que todos estivessem no quintal, ao ar livre. Um bando de gente, nenhum fumante e nenhum cinzeiro no chão. Que beleza. Pedi o isqueiro pro rapazinho da porta, que ficou bravo por ter que me emprestar o isqueiro pela segunda vez na tarde. Se eu tivesse um Zippo que nem o dele, acenderia o cigarro de todo mundo. Já faço isso com meu Bic. Acho educado. Mas o cara não se orgulhava do próprio Zippo e não curtiu que eu o manuseasse . Vai entender. “Aproveita esse Zippo aí, abaixa as calças, empina a bunda, e...”. Mas eu sou educada. Entrei novamente. Ah, e não paguei os sete reais de entrada. A guria me disse, na porta “Sete reais”. Eu disse “tá”. E entrei. Pensei que era pra pagar na saída. Mas não era. E eu entrei. Me senti mal quando me toquei disso, mas acho que não devia ter me sentido. Quero dizer, sete reais não pagavam, de maneira alguma, a paciência que eu perdi. Mas poderia comprar um maço de cigarros, já que os meus haviam acabado. Aliás, poderia comprar dois. E um isqueiro. Bic.
Começou o “espetáculo”. Uh. Primeiro achei que aconteceria algo extraordinário. Quero dizer, ouvi cânticos numa língua que eu não conhecia, pessoas batendo em tambores, flautas e umas varas que eu nem sei o nome, fazendo plé plé. Legal. Daqui a pouco eu vou entrar ali no meio e fazer uma dança indígena. Não é ironia. Eu queria mesmo entrar ali no meio e fazer uma dança indígena. Mas não deu tempo, por que desfizeram a roda e os batedores de bumbo e flautistas entraram pro que chamavam de palco. Não era um palco. Era um canto com uns tapetes e uns instrumentos. Todos nós entramos atrás e nos acomodamos apertados uns nos outros no chão. Afinal, era um sarau. Tirei o casaco e o embolotei atrás de mim, por precaução. Minha calça estava larga e eu não queria que o habitante do pedaço de tapete atrás de mim visse, você sabe, a minha bunda. A banda tocou umas músicas que diziam coisas como “você pode ser o que você quiser” entre outras mensagens positivas, embalados nas palmas dos espectadores – exceto... quem?... hummm... eu – e eu cochichei no ouvido da May (que também estava adorando) “to me sentindo num show do Jota Quest” embora eu nunca tenha ido – e nem pretenda – ir num show desses caras. Percebi um desapontamento no olhar dela que quase me deu vontade de fingir que eu estava adorando. Mas eu disse quase. Além disso, uma mina que estava atrás de mim tentou roubar meu casaco. Fui lá pra fora e acendi um cigarro (conseguido por puro milagre, de um guri que também estava revoltado que não houvessem cinzeiros no meio de todos aqueles lixos de plaquinhas com dizeres tipo “alumínio”, “plástico”, etc). Acendi numa das velas que estavam sobre a mesa da quitanda que vendia bombom e suco de abacaxi. Uma palhaça foi se apresentar pras crianças e a gente ficou lá assistindo. Palhaça literalmente. Com maquiagem e tudo. A May achou que minha lata de cerveja estava vazia e soltou uns papéis amassados lá dentro. Eu gritei, de brincadeira “sua filha da puta”. Quero dizer, po, ela era minha amiga, e eu e minhas amigas nos tratamos assim. É tudo harmoniosamente bem entendido entre a gente, tipo “hahahahaha”, mas parece que todo o restante não achou que fosse uma boa hora. Quero dizer, olha as crianças, olha as crianças. Olha a palhaça com a Sailor Moon na mão. Coitada. Eu só pude dizer abanando as mãos em sinal de desesperança “desculpa aí, gente, desculpaí”. E todos voltaram as cabeças pro palco novamente, enquanto eu permaneci sentada do lado da churrasqueira trocando minha cerveja-com-papel pela cerveja-sem-papel da Mayara.
Mas calmaí que teve o lado bom da noite. Apesar da cólica, culturebas e nerdicices em geral, a banda que a gente foi ver (eu, pela primeira vez), Projeto Realejo, foi um dos pontos altos. Assim como os guris que nela tocam, embora eu não estivesse pra muitos amigos. Estava mais preocupada com a minha dor, pra falar a verdade, do que com confraternizar com as únicas pessoas que pareciam legais em meio ao restante. O Márcio, que toca bateria, até superou minha falta de modos me emprestando o casaco dele pra eu ir embora. Mó chuva. Agradecida. Sem falar que ele é legal mesmo. Agora, eu estou com dor de garganta. Sofri a noite inteira. Como vou hibernar até me sentir um pouco melhor, passo o dia na frente do computador a escrever e-mails, inventar surpresas e redigir textos. E claro, a engolir comprimidos.

Em resumo: Desculpaí, pessoal, pela falta de entusiasmo. É que, como dizia o fuscão... prefiro minha parte em dinheiro.
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Thursday, July 12, 2007

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Acorda, meu amor, e vem ver o sol já alto. Olha comigo pela janela e vê que o domingo resplandece sem sentir a sua ausência. Vê minhas olheiras; elas denunciam a falta da carne que me alimenta, do suor que mata a minha sede, dos olhos que me iluminam nas madrugadas altas. Vê, meu amor, que as coisas do mundo são as mesmas, mas eu já não sou mais? Eu, ímpar, transtornada em par, sozinha, sem notícias. Eu, vítima de mim mesma, da minha angústia, da saudade de você. Você que me desespera à distância mais do que quando perto. E quando perto já me tira do prumo, me confunde os pontos de vista, bagunça os horizontes em ontem, hoje e amanhã. Acorda, meu amor, escreve para mim, e diz que me ama, que volta em breve para casa, que sem mim você já não sabe mais viver. Vamos, acorda, meu amor, que você gosta de perder a hora e dorme sempre mais do que a cama. Mas hoje, hoje não. Acorda, e fala comigo. Acorda deste sonho ruim dos últimos dias, e volta a sonhar como antes. Acorda, e vem, e me abraça, e me diz, no plural, que estamos bem. Eu amo você também.
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*Roubado na cara dura da "Chapelaria".

Wednesday, July 11, 2007

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Ai meu deus... só posts improdutivos nos últimos dias. Só por que essa ansiedade tá aqui apertando a minha garganta. Só por que eu tenho isso de sair correndo pro computador quando qualquer coisa cai da minha mão e se quebra no chão. Mas não pode. Primeiro por que eu exagero. Segundo por que exageram o meu exagero e isso eu já sei que acaba mal. E eu tenho mais coisas pra me preocupar. Eu nunca pensei que pensaria duas vezes a respeito desse assunto. Mas eu tenho que pensar. Eu tenho que pensar por que não é assim que se sai de casa, não com essa febre e com um bolso que deixa tanto a desejar. Quero dizer, minha vida não é um inferno. Claro que ia ser lindo, seria a minha casa. Com todos os puffs que eu quisesse e em todos os horários que eu quisesse. Só quem eu deixasse entrar sentado no puff. E deitado na minha cama. Os meus sininhos no teto. Tudo colorido, minha mesa com umas vinte miniaturas de buda. Roupas espalhadas no guarda roupas e embaixo da cama. Eu preciso de um pouco de desordem.
Mas ainda tem todo aquele outro lado lá. Então eu não sei. Eu estou confusa e tenho três meses pra mudar a vida de alguém, além da minha. Eu queria alguém que aparecesse de uma lâmpada e dissesse que eu tinha direito aos três pedidos. Meu amor, primeiro, eu ia pedir que o meu coração ficasse inteiro de novo. Depois eu ia pedir grana suficiente pra ir, vir, comer, dormir e vadiar. Terceiro eu ia pedir pra ser imortal.
Por enquanto, eu ainda estou me recolhendo, com sucesso de 85%. E com a taxa aumentando.
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Tuesday, July 10, 2007

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Karina Abramovich: Sempre blogando posts injustos e sendo exagerada. Até quando sabe onde vai dar.
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Karina em semana de não-hibernação voluntária. Percebi que se eu ficar parada aqui olhando pra minha cara no espelho, eu vou acabar me auto-esmurrando e cortando todos os dedos nos caquinhos de vidro. Por que eu olho pra mim e penso “mas não é possível”. Algum espírito de porco vagal deve ter se pendurado aqui no meu ombro. E isso, é analisando a vida num todo. Quero dizer. É lógico que eu fiquei ferida, mas minhas feridas são previsíveis assim como eu. Como eu lido muito bem com elas (pra ninguém mais ter que lidar), deve estar tudo certo. Mas a vozinha disse: “Melhor não abusar”. E eu sei que eu abusei. Eu abusei sem saber direito se estava na hora. Ainda não sei se estava e pode ser até que sim. Quero dizer, eu estou preparada pra qualquer coisa, menos pra morte. Eu sou assim. Só aprendo quando minha cara vai à tapa, e por isso mesmo que eu sempre afirmo que eu entendo um pouco de morte, e ela não tem nada de boa. E também não é legal ficar morrendo à toa, apenas quando é necessário ou inevitável, e eu achei que esse fosse o caso. Quero dizer, dessa mortezinha que ocorreu aqui. Grande parte foi choque. É, choque da hora, sabe como é? A última esperancinha sendo degolada viva? Por que não adianta fingir que eu não sou sonhadora e esperançosa e que no fundo no fundo nunca teve um suspirinho, por que tinha, e bastante.
Mas eu estou orgulhosa de mim, apesar desse nó que sobrou. Quero dizer, eu nem tive ataques de nada.
Tá bom.
De quase nada.
E eu sei me defender muito bem. Sou boa na conversa e melhor ainda no tapa - quando o primeiro não resolve depois de uma árdua insistência, claro, ou quando eu sei que nem adianta começar a falar, o que geralmente, é o caso.
Eu não tenho medo de sofrer, e sim de ser feliz. Então as coisas precisam ser ajeitadas. Por que, quero dizer, se eu discordar de mim a vida inteira, isso não vai acabar muito bem, sabe? As vezes eu acho que eu estou bancando demais a aventureira. Chegou uma hora em que meu coração escolheu o último homem da face da terra que vai me querer, escolhi a profissão errada, vou me mandar de casa pra morar sozinha, vou mudar de cargo, e ainda tem essa coisa de começar a escrever seriamente, quero dizer, está tudo um auê danado. Só a minha nova moda de ser introvertida que está demorando pra passar. Logo ela, que nunca fez parte de mim. Eu, geminiana, bancando a principiante por aí. Vê se pode. Inclusive, agora, juntando toda a forcinha que pude recolher do chão, eu entendi. Eu só me descontrolei um pouco por causa da música. Eu acho. No fim, a culpa deve ter sido do Pink Floyd.
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Karina x Karina - Parte IV

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_ Karina, são 4:46 da manhã. Não era pra você estar na cama?
_ Acho melhor não.
_ Você não estava dizendo há cinco minutos que a única coisa que você queria agora era se enroscar num canto e dormir?
_ É, foi o que eu disse.
_ E por que você não está lá? Quero dizer, a sua cama está há nem três metros de você.
_ Tenho medo de ter o pior sono desse ano.
_ Você já teve sonos piores do que o que você está deduzindo, Karina. Você sabe.
_ Sei. Mas parece que a ferida abriu de novo.
_ Até quando?
_ É o que eu gostaria de saber. Mas posso lançar um palpite. Acho que até eu enfiar a cara no travesseiro e secar toda essa minha autoflagelação que eu fiz questão de causar hoje. Essa sabotagem de ‘me’ para ‘myself’.
_ Mania burra essa sua de achar que é mais forte do que realmente é.
_ Mas meu amor, eu sou mais forte do que eu acho que sou. Não posso acreditar que você ainda não reparou nisso.
_ Rs, eu reparei que você tem o dom do sarcasmo, querida. Mas isso é pouco.
_ Será?
_ Sim, é pouco.
_ Pode ser.
_ Não pode ser. É.
_ Por que você sempre quer dar a ultima cartada, hein?
_ Olha, por que se eu não fizer isso, algum idiota vai acabar dando por mim. E eu nem vou deixar, ó.
_ Vendo por esse lado, você ta certa.
_ Você concordando comigo? Ora, mas quem diria.
_ Pra você ver.
_ ...
_ ...
_ ...
_ Isso te incomoda tanto assim?
_ Isso o que?
_ Eu discordar de você o tempo inteiro.
_ É que eu acho que você, por ser assim, digamos, meu eu, a lógica seria que fossemos iguais.
_ hahaha. Você não pode acreditar nisso que você está falando. Olha pro teu sobrenome.
_ Certo, você me pegou. Mas como você queria que eu estivesse agora?
_ De jeito nenhum, oras. Não era pra estar de jeito nenhum.
_ Desenvolva.
_ Você pede, Karina. Olha pra você. Eu tenho até vergonha de ver você naquele espelho.
_ Desenvolva melhor.
_ Karina. Olha pra mim. Presta atenção. Você e aquela cordinha fraca. Você disse aqui antes. “Eu vou lá naquele abismo. Eu e a minha cordinha fraca”. Ou qualquer merda do tipo. E você foi. E sabe por que você foi? Não por que você seja corajosa. Você foi de tonta que você é.
_ Deve ser por isso que aquela cama está me dando calafrios aqui.
_ Olha você concordando comigo de novo.
_ Dessa vez fui obrigada.
_ Por que você não pode simplesmente parar?
_ Por que dói.
_ Mudar dói. Não mudar dói mais.
_ Eu já li isso em algum lugar.
_ É, mania de gente que ta começando a ler mais do que devia. Fica citando coisas o tempo inteiro.
_ E ninguém entende bosta nenhuma.
_ Ninguém entende bosta nenhuma.
_ Mas vamos tentar nos entender primeiro. Acho que vale mais a pena. Repassar os fatos.
_ Eu só queria tirar essa faca aqui do meu estômago. Hoje eu passei mal de tristeza. Queria ir pro banheiro e vomitar. Chorar agarrada na privada.
_ Que bom que você ainda tem princípios.
_ Dignidade.
_ Uma mulher pode perder a dignidade na hora que bem entender.
_ Outra citação.
_ Pois é.
_ Mas por que você pega a droga da faca e enfia na barriga, então, cristo?
_ Eu... eu não sei.
_ Posso dar um palpite?
_ Claro.
_ Eu acho que você só se sente bem quando está triste.
_ Mentira! Eu já abracei tristezas demais pro meu gosto. Eu estou procurando a felicidade, lembra? A felicidade!
_ Então você é muito contraditória no seu modo de agir. Deve estar procurando no lugar errado. Você acha que vale?
_ Não sei. Mas eu prefiro. Quero dizer. É o meu coração, sabe? Romântico.
_ Burro.
_ Pode ser. Mas ainda assim não deixa de ser romântico.
_ Não me envergonha, Karina.
_ Quer saber, meu? Foda-se. Eu não tenho lá muitos pontos na sua lista. Nunca tive. Não quero saber se você é mais racional. Não quero saber se você está fingindo que essa faca não está doendo em você também.
_ Pára de chorar. Toma aqui esse lenço.
_ Não quero.
_ Deixa de ser cretina. Toma aqui esse lenço.
_ Já disse que não quero.
_ Karina, na boa. Você não entende merda nenhuma de amor. Saber que ele é eterno e só muda não é merda nenhuma. Você não entende nada sobre nada e sabe que nunca vai entender por que a tua cabeça funciona meio longe desse mundo. Meu, olha em volta. Vê se tem alguém nessa merda que perde tempo pensando em formas de consertar o que não tem conserto. Você está ferrada, minha amiga. É só isso que eu te digo. Você está ferrada e mal paga. E digo mais. Você ta ferrada, mal paga e sozinha. Levanta essa cabeça.
_ Por que você está falando assim?
_ Por que você é uma imbecil, menina. Uma imbecil. Sério mesmo. Mais imbecil impossível.
_ Se você começar a chorar também não vai adiantar muito.
_ Culpa sua. Como é que eu posso ver você fazer isso e não sentir nada? Porra Karina, pensa no meu lado.
_ Ta, mas eu não vou te pedir pra parar de chorar. Sério. Eu estou esperando mó cara pra me afundar no meu travesseiro e sufocar nas minhas lágrimas. Agora eu não tenho forças pra mais nada. Nem pra te consolar. Nem pra levar esse prato de macarrão frio pra cozinha. Nem pra abrir aquela tela do explorer e nem pra ver aquela planta. Nem pra pensar em falar com alguém. Não vai sair. Não vai sair nada e eu vou ficar aqui com as minhas lágrimas e o meu prejuízo e a minha corda arrebentada.
_ Está bem. Já que eu não vou te convencer do contrário, tenta pelo menos parar de escutar Pink Floyd.
_ Verdade. Aquela doeu, viu. Pink Floyd em hora errada é fóda. Eu estou me sentindo pequena. Pequenininha do tamanho de um átomo. Que bom que perdi a droga do cd do Floyd.
_ Ainda bem
_ Ainda bem.
_ Olha. Vai pra cama. Afunda a cara no travesseiro. Não olha pro lado direito da cama. Sufoca lá e chora. Sente toda a sua dor, assim, bem sentida, pra não sentir falta dela depois. Desmonta. Aproveita que a casa ta vazia. Aproveita que você pode gemer e soluçar à vontade, ninguém vai te ouvir. Grita, se quiser. Taca aqueles quadros de pierrot no chão. Mas vai agora. Vai agora, que amanhã eu te quero fria de novo. Amanhã você tem que descer lá na M. e não pode parecer uma lunática. Anda. Faz essa dor sair, se tiver como expelir ela inteira.
_ Já se sentiu tão triste que se sentiu impotente?
_ Olha pra quem você vai perguntar, Karina. Por favor.
_ É por isso que eu estou aqui agora. Atônita. Com realmente nada ao meu alcance pra fazer. Eu queria ser deus, sabe. Eu nunca quis isso. Mas agora, exatamente agora, eu queria. Por que eu não sei imaginar mais nada pra fazer. Eu preciso de um milagre, varinha de condão ou que deus desça agora aqui na minha frente pra falar comigo. Pra me dizer por que ele não me fez nascer na pele de um cachorro ou de uma formiga que vive e morre como todas as outras formigas sem se preocupar se ela está enlouquecendo ou não, por que formigas não enlouquecem, e o que é que eu faço pra essa dor aqui passar, por que eu realmente não sei. E eu sei que amanhã ela já passou, mas amanhã pra mim ta longe, eu quero que essa dor suma agora.
_ Então vai ali rezar, porra. Ajoelha em cima do milho. Faz penitência. Te manda p’rum convento. Vai à merda.
_ Sarcástica filha da puta.
_ Bem... pensando bem, por que não?
_ Cínica.
_ Covarde.
_ Hum... Passou a vontade de chorar.
_ Hummm. Então vai dormir.
_ Melhor. Amanhã é um novo dia, não é?
_ Citação de novo.
_ Mas essa é de música.
_ As coisas evoluem, sempre.
_ Graças a Deus.
_ Graças a Deus.
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Friday, July 6, 2007

ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ

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DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst


I

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria.

Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto.
Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

III

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?

IV

Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente

E porisso talvez
Te aborreças de mim.

(...)

Wednesday, July 4, 2007


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Nova versão: Sem unhas na mão direita e muitas erupções na pele.
Certo, não é tão nova versão assim.
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Monday, July 2, 2007

Antítese

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Ontem eu tomei uma decisão importante. Eu decidi que eu vou pegar o meu amor, cravar as minhas unhas nele e protegê-lo de toda merda que acaba chegando em cima da gente quando a gente é feliz e mesmo que isso signifique a tal das “mentiras para mim mesma” (e não, gente, acreditem mesmo no que eu vou dizer: Não tem NADA a ver com isso) eu vou colocar todo meu amor debaixo das cobertas comigo e vou me desarmar completamente e vou me dar pela primeira vez pra ele e vou querer continuar assim: Entregue. Eu, as minhas pieguices e o meu amor. O resto coloco na prateleira. Do resto não preciso. Tudo que eu preciso é dessa porra dessa entrega. Por que eu já sou inclinada a fazer isso. Mas por algum motivo burro aqui da minha cabeça eu achava que não era certo e que eu tinha que pensar que amanhã eu podia mudar idéia. Mas agora eu não vou. Qual é o pecado maior? Pra mim pecado é não viver. Eu to indo lá. Eu e a minha corda. Vou me jogar lá do alto daquele abismo e vou sentir o vento na minha cara quando eu estiver caindo por que eu não sei ser de outro jeito.
Tentei aprender a vida inteira e ser desse jeito aqui. Mas olha que servicinho mais maltrapilho que eu fui fazer. Desse jeito aqui eu não consigo ter paz. Desse jeito aqui eu não consigo sentar de frente pr’aquele lago e acender o meu incenso. Desse jeito aqui eu não realizo, eu não saio das nuvens. Quero viver na terra que é melhor. Planto umas flores no caminho e fico andando. Fico dançando, saltitando, tomando chazinho de ervas. Enfio uma flor no meu cabelo e vou escutar Polyphonic Spree. Não morro de ciúmes (essa parte é mentira), não perco meu tempo. Aprendo a olhar nos olhinhos pequenos mais fundo. Aprendo a dizer que “eu te amo” por que tá mó engasgado aqui, ó, bem debaixo desse nó na minha garganta. Tá engasgado que eu quero o mundo vá pro inferno e eu não quero nem saber de “daqui há tralálá” eu quero me jogar agora e eu quero quebrar a minha cara bem quebrada por que senão nada disso vai ter valido a pena. E tem muita coisa aqui que vale. Vale a pena pra caralho e compensa tudo.
Eu não quero nem saber. Sai da minha frente. Sai que eu to indo lá no abismo com a minha cordinha fraca.
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Karina Abramovich.: Agindo sempre contra as corporações. E ficando sempre no prejuízo.
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